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10.3.10

I'm sorry but I'm not proud


Agora surgiu no facebook um grupo chamado "I'm a christian and I'm proud". Alguns dos meus amigos aderiram ao grupo e entretanto recebi um convite para aderir também. Mas não o fiz. Porque não me orgulho de ser cristão. Antes que os meus leitores cristãos comecem a resmungar contra mim e que os meus leitores não-cristãos comecem a sorrir pensando que eu me "desconverti", deixem-me explicar melhor...

Ser cristão não é algo de que eu me possa orgulhar. Digo até mais: ser cristão não é uma escolha, porque na verdade não tenho alternativa. Um dia Jesus perguntou aos discípulos se queriam desistir de o seguir. Pedro devolveu a pergunta a Jesus "[mas se desistirmos de te seguir] Para quem iremos nós?" (João 6: 67-68). Esta pergunta retórica soa-me a qualquer coisa como "Mas qual é a alternativa?". Sou cristão porque necessito de redenção e reconciliação com Deus e porque a graça do Pai, expressa através da vida e do sacrifício de Jesus, é o caminho para essa reconciliação. Não há alternativa. E a graça não é algo de que me possa orgulhar. Não há qualquer laivo de mérito próprio envolvido no processo de reconciliação com Deus. É um favor 100% imerecido que o Pai dá a um filho maltrapilho.

Além disso, há um contra-senso grotesco quando nos orgulhamos de ser cristãos. Vejamos...

É natural (embora perigoso) orgulharmo-nos de coisas que fazemos bem. Se temos boas notas na escola é natural que a aprovação que recebemos dos nossos amigos, família e professores faça brotar em nós uma ponta de orgulho. Se temos talento nalguma área específica como a música e o desporto (e a matemática, porque não?!) a admiração que granjeamos com os nossos desempenhos também nos leva a inchar e a ficar feios como os sapos. Em resumo, a sociedade tolera e até promove o orgulho, quando este surge como consequência de um bom desempenho na tarefa que nos propomos realizar. Ora se nos orgulhamos de ser cristãos, a ideia subjacente é que somos bons nessa tarefa, que somos bons seguidores de Cristo. Mas caramba! vamos lá a chamar os bois pelos nomes: em geral nós (com algumas felizes excepções) somos péssimos seguidores de Cristo (e isto para mim é tão evidente que nem me vou dar ao trabalho de argumentar)! Portanto estamos a orgulhar-nos de uma coisa na qual somos péssimos... É ou não é um contra-senso?

Aos meus ouvidos e aos ouvidos de muitos não-cristãos, ouvir alguém a orgulhar-se de ser cristão soa a arrogância. Acredito que quem fundou o grupo no facebook não tivesse intenção de soar arrogante. Aliás, deve ter sido fundado com uma aparentemente boa intenção: encorajar os cristãos a desfraldarem a bandeira do cristianismo. No entanto eu não creio que o cristianismo deva ser exibido com orgulho, mas com humildade, sabendo que tudo aquilo que somos é pela graça. E se queremos desfraldar a bandeira do cristianismo podemos e devemos fazê-lo trocando as palavras por actos de amor. Em vez de usarmos os púlpitos das igrejas para fazermos discursos inflamados (ou o facebook para criar grupos de valor duvidoso), podemos usar os braços para amparar quem está só ou em sofrimento, os recursos para suprir necessidades dos necessitados, o amor e a graça que Deus derramou em nós para responder à injustiça e ao ódio.

Há pouco tempo aderi a um outro grupo no facebook chamado "sou evangélico(a) (ou simpatizante), mas não é por mal!". Se calhar estes dois grupos até servem propósitos semelhantes. Mas as palavras escolhidas são diferentes e sugerem uma motivação diferente, uma ideia-base diferente para o grupo. Talvez vejam esta minha opinião como uma picuinhice exagerada e desnecessária, com vestígios de fundamentalismo. Talvez seja uma opinião altamente criticável e é provável que possam contrapor-lhe sem esforço algumas críticas bem mandadas. Aceito que digam que eu estou a levar demasiado à letra algo que talvez se resuma a uma escolha infeliz de palavras. Porém eu acho que é preciso ter cuidado com estas coisas, para não distorcermos ainda mais aquilo que é afinal o cristianismo. E também porque talvez esta escolha de palavras não seja apenas infeliz, mas um reflexo de um problema mais grave que invadiu as igrejas como uma praga, a arrogância. Felizmente, a tendência da igreja emergente é abrir mão dessa arrogância e optar por uma terapia de graça e humildade! Talvez os passos que demos nesta terapia sejam ainda poucos e ainda indecisos, meio aos tropeções... Mas não queiram voltar atrás, por favor!!!

E lembrem-se: "Há mulher de César não basta ser séria"... E agora, se me dão licença, I rest my case.