No fim-de-semana passado estive num acampamento para celebrar os 40 anos do Grupo Bíblico Universitário em Portugal e foi lá que ouvi este hino. Dizem que é muito antigo, mas eu não o conhecia. Ficou-me no ouvido e a letra tem ecoado no meu coração. É daqueles hinos que conciliam uma melodia suave e bonita, uma balada, com uma letra que é um poema. Poema de reconhecimento daquilo que o Pai fez por nós sem nós merecermos. Deixo-vos a letra em português:
Profundo o amor do Pai por nós, tão vasto e sem medida Que deu seu filho p'ra fazer do vil o seu tesouro Que rude golpe para o Pai, chorando vira o rosto Ao ver as dores pelas quais os filhos vêm à glória
Olhai o homem sobre a cruz sofrendo o meu pecado Chocado, ouço a minha voz no meio dos que troçam É minha a culpa que o prendeu até estar consumado No grito dele ao expirar obtenho vida plena
Em nada quero me orgulhar - dons ou sabedoria Orgulho-me só em Jesus: o morto e ressurecto Não sei porque sem merecer recebo o prémio dele Mas sei de todo o coração que nele fui resgatado
Consigo imaginar Deus a cantar esta canção dedicada a cada um de nós. Bem sei que é uma canção secular. Mas todas as expressões humanas de amor e afecto são apenas vislumbres imperfeitos daquilo que Deus sente por nós. Ele dá-nos diariamente prendas bonitas: o Sol pintado no céu, o sorriso terno de uma criança, um pássaro que assobia ao longe uma melodia alegre... pequenos gestos ou momentos que aquecem o coração, próprios de alguém profundamente apaixonado. Ele deseja conquistar o nosso amor. Ele anseia que corramos para os seus braços e que nos deixemos também apaixonar por Ele.
A ideia que Deus está loucamente apaixonado por cada um de nós é das coisas mais libertadores que existe. E espanta-me que seja tantas vezes vista como uma revelação revolucionária e até chocante para muitos cristãos. É que no fundo é esta ideia que constitui o cerne da Bíblia: deu-nos ama-nos tanto que até nos deu o que de mais precioso tem - Jesus!
Tendo em conta a quadra que atravessamos, até vou extrapolar um bocadinho: esta é a minha canção de Páscoa para vocês, caros leitores.
All the gold in the world Is nothing to possess If all the things that it can bring Can't add up to one ounce of your happiness
And for your love I would do anything Just to see you smile upon your face For your love I would go anywhere Just you tell me and I'll be right there
A diamond that shines Like a star in the sky Is nothing to behold For minuscule is any light If it can't like you brighten up my soul
And for your love I would do anything Just to see you smile upon your face For your love I would go anywhere Just you tell me and I'll be right there
I could have never fathomed this Such joy , love and tenderness That you give to me For the love I feel inside It's so wonderful I can't hide And I glow, I glow With just the thought of you I do, I do, I do, I do, I do, I do
And for your love I would do anything Just to see you smile upon your face For your love I would go anywhere Just you tell me and I'll be right there
Vivemos num mundo onde a publicidade é rainha. Qualquer marca, empresa, filosofia, evento, entidade política, desportiva ou relogiosa encontra no marketing uma arma poderosa para alienar pessoas. A cada dia somos bombardeados por diversos tipos de convites. Convites ao consumismo, convites de ideias sedutoras, convites para termos, para sermos, para fazermos... O barulho é ensurdecedor e as pessoas andam sem rumo, num esforço hercúleo, mas caótico, para satisfazer todos os convites. A quantidade de informação e de vozes à nossa volta é tão grande que se torna tarefa difícil discernir aquilo que nos convém, perceber quando devemos dizer "sim" e quando devemos responder "não". O nosso carácter é atropelado pelos convites da sociedade, pelo excesso de oferta. Por vezes, dizer "sim" significa dar uma parte de nós, arrancar um pedaço da nossa identidade.
Entretanto, há um convite constante que nós ignoramos. O apelo de Jesus! Muitas vezes não o ouvimos, pois permanece abafado pelos ruídos à nossa volta. Outras vezes ouvimos o seu sussurro, mas adiamos a resposta e preferimos responder primeiro a milhares de convites que parecem mais sedutores - mas são supérfluos e, eventualmente, prejudiciais.
Mas, ainda assim, Ele chama-nos constantemente para termos comunhão com Ele. Para nos entregarmos nos seus braços de amor. Não nos força, não usa o marketing, nem a publicidade enganosa, não entra nesse jogo. Pelo contrário, chama-nos com uma voz suave e amorosa e tem como logótipo uma rude cruz de madeira, desprovida de beleza. Talvez tenhamos dificuldade em reconhecer a sua voz. Mas Ele continua a chamar por nós, anelando pelo momento em que nós o escutamos e, finalmente, corremos para Ele dizendo simplesmente "aqui estou eu".
Como diz a letra do antigo hino "Manso e suave, Jesus está chamando..." Podemos responder a este apelo de várias formas. Podemos rejeitar, continuar a adiar a resposta, fingir ouvidos moucos... ou aceitar. Aceitar sabendo este é o único apelo ao qual podemos dizer "sim" certos de que não vai ser arrancado nenhum bocado da nossa identidade... pelo contrário, é nos braços de Jesus que a nossa identidade se completa e que nos sentimos plenamente realizados!
E tu, qual tem sido a tua resposta quando Jesus chama por ti?
Bem sei que isto não se aplica a todos os versos da música, mas não resisto a comparar o amor expresso neste poema com o amor que Deus sente por nós, por mim... E, conhecendo a carreira e a personalidade do Stevie Wonder, acredito que esta comparação também lhe tenha passado pela cabeça quando escreveu a letra da música e quando a compôs. Esta música é o apogeu artístico daquele que é um dos grandes músicos da história. Pessoalmente, ainda não conheci nenhum músico com uma carreira tão rica e revolucionária e com uma qualidade tão monstruosa quanto a do Stevie. Não quero entrar aqui em detalhes acerca da história do Stevie, mas para quem quiser saber mais refiro um texto que escrevi no meu antigo blogue. Queria apenas deixar-vos a tal música. Chama-se As e é mais conhecida na versão de Mary J. Blidge e George Michael. Mas a versão original do Stevie é muito melhor. É uma ode ao amor! Pode aplicar-se ao amor entre um homem e uma mulher, aquele amor que une duas pessoas por toda a vida, mas também se aplica ao amor em geral, o amor que é o sentimento mais nobre (porque provém de Deus) que o ser humano pode sentir.... Tem versos que são desafios à imaginação, escritos com um toque de infantilidade e de paixão: Until the day is night and night becomes the day - ALWAYS Until the trees and seas just up and fly away - ALWAYS Until the day that 8x8x8 is 4 - ALWAYS Until the day that is the day that are no more Did you know that you're loved by somebody? Until the day the earth starts turning right to left - ALWAYS Until the earth just for the sun denies itself I'll be loving you forever
É assim que Deus nos ama! E é com a mesma infantilidade e paixão que nos podemos deliciar com esse amor.
Há algumas semanas atrás estive num almoço de família, comemorando o 90º aniversário de uma tia minha. A minha tia é esposa de um pastor que foi responsável por várias igrejas em Portugal e foi missionário em Angola. Depois do almoço contaram-se histórias. Filhos, sobrinhos e amigos da minha tia recordaram o passado, os momentos tristes e alegres, episódios que causaram dor ou riso, recortes de uma vida repleta de experiências ao serviço do Pai e do próximo. Foram histórias sem preço que ouvi naquela tarde. Histórias de familiares que viveram numa época diferente da minha, com mais obstáculos e dificuldades, mas com uma dependência radical de Deus e uma vida muito mais aventureira do que aquela que hoje vivo. Às vezes a nossa tendência, por nos julgarmos gente "moderna" do século XXI, é desprezar aquilo que os mais velhos têm para ensinar. Já não temos paciência para ouvir as histórias. E, no entanto, elas são tão ricas...
Tenho muitos pastores e missionários na família. E ao longo do meu crescimento fui ouvindo histórias de vários tios cujo trabalho em prol do Reino foi marcante e cujas vidas foram bonitas! Hoje sei que essas histórias deixaram em mim uma herança indelével, apesar de eu nem sempre me ter apercebido dela. As histórias que ouvi levaram-me a admirar esses meus tios, grandes aventureiros!
Recordo com particular saudade as visitas de um tio à minha casa, ex-pastor de várias igrejas em Portugal, ex-missionário em Timor e que hoje vive nos Estados Unidos. O jantar era sempre marcado por histórias e por gargalhadas dos mais velhos, enquanto eu e a minha irmã respondiamos com leves risadas, muitas vezes sem perceber bem o conteúdo das conversas ou sem lhes dar o devido valor. Durante muitos anos ele era presença frequente na minha igreja, como orador convidado. E aí toda a gente gostava dele (ou, se não gostavam, disfarçavam bem). Pregava a contar histórias! Histórias provenientes de uma vida com experiências enriquecedoras e de um coração bom. Esse meu tio é em muitos aspectos o meu ideal de velhote: já dei por mim várias vezes a pensar que quando for velhote quero ser um velhote feliz como ele.
Sempre gostei de histórias e talvez seja por isso que o meu género literário favorito são as biografias. Gosto de conhecer histórias de pessoas. Temos muito a aprender, mesmo com pessoas comuns que, aparentemente, não tenham feito nada de relevante.
Há colectâneas de histórias muito boas. Por exemplo, os livros "Histórias Para O Coração", que contêm histórias recolhidas por Alice Gray. Li alguns livros desta colecção há alguns anos e não foram poucas as noites em que adormeci com os olhos húmidos por culpa das histórias que tinha acabado de ler.
Agora estou a ler um livro chamado Let Me Tell You a Story, uma colecção de histórias compiladas, vividas ou ouvidas por Tony Campolo. Histórias que nos levam a reconhecer traços da personalidade e do carácter do Pai através de episódios das vidas de pessoas comuns. Com o subtítulo "Life Lessons from Unexpected places and unlikely People", este livro é mais um que nos faz mergulhar no maravilhoso mundo das histórias. Tony Campolo é um contador de histórias nato - diz ele que aprendeu com a sua mãe, também ela uma especialista nesta arte. A maior parte dos pregadores baseia os seus sermões na doutrina cristã, na teologia. Tony Campolo usa as histórias como a sua própria teologia. Diz ele: «someone else suggested that I use stories instead of theology as a basis for my sermons, but I must tell you that, in the end, my stories do not illustrate my theology - they are my theology. I choose to tell truths about myself, about others, and most of all about God, not with theological statements, but with stories.»
É engraçado constatar que Jesus também ensinou teologia através de histórias. É nas parábolas que encontramos a essência do Reino de Deus e do Amor do Pai. Jesus contava histórias às multidões e mesmo as suas conversas com os discípulos estão repletas de ilustrações e de exemplos da vida quotidiana daquela época. No sermão da montanha - "the best sermon ever" nas palavras de Shane Claiborne - Jesus aborda uma vasta gama de problemas pelos quais nós passamos e dá-nos indicações muito precisas e valiosas daquilo que significa ser Seu seguidor. Mas não o faz recorrendo a um sermão enfadonho e repleto de afirmações teológicas imperceptíveis e impraticáveis. Jesus recorre a ilustrações como "o sal", "a luz", "os lírios do campo", "as árvores do céu" e "a casa construída sobre a rocha". Acredito que a teologia tem a sua importância e o seu valor, mas pode tornar-se inacessível e dúvido muito da relevância de uma teologia cujo resultado seja apenas doutrina abstracta. Ainda que respeite quem estuda tal teologia, creio que o mundo não precisa de teologia que não tenha como objectivo a relação com Deus e que não seja passível de ser aplicada na vida prática.
Arrisco mesmo a dizer que Jesus terá sido o melhor contador de histórias de sempre. Ele contou-nos histórias que nos permitem conhecer o Pai e contou-nos essas histórias como nenhuma outra pessoa poderia contar - porque Ele e o Pai são um só. Histórias como a do filho pródigo, a da ovelha perdida ou a moeda perdida, contêm a melhor teologia jamais feita! Julgo que se o Espírito Santo nos revelasse o significado pleno dessas histórias nós teríamos automaticamente conhecimento de toda a teologia que necessitamos para uma vida cristã abundante. É pena que essas parábolas estejam hoje tão batidas, que se torna difícil encontrar nelas algo de novo, algo de relevante, para além das verdades valiosas "Deus ama os pecadores", "Deus está de braços abertos à tua espera", "Deus está à tua procura", que infelizmente se tornaram afirmações corriqueiras, ao ponto de soarem desprovidas de significado. Por vezes, ao reler estas histórias, Deus presenteia-me com vislumbres do seu real significado: delicio-me com o tamanho do amor de Deus, com a loucura e a extravagância desse amor e com o anseio que Ele sente por ter comunhão connosco... E é então que essa comunhão se torna irresistível!
Contar histórias é uma arte que raras vezes é valorizada na sociedade e nas igrejas... Uma boa história amacia e derrete um coração. Uma história bonita e simples tem o condão de nos aquecer da mesma maneira que uma lareira numa noite de Inverno. Ao sermos confrontados com uma boa história, somos levados a despir a nossa carcaça de insensibilidade, o riso e o choro tornam-se irresistíveis, tornamo-nos mais humanos, mais genuínos...
Por todas estas razões, vá lá, conta-me uma história...
Sou um tipo um bocado lamechas e por isso gosto dos programas de televisão do género X-factor quando pessoal com o sonho de ser artista se apresenta diante dos júris tentando surpreende-los com o seu talento e obter deles o tão desejado "SIM". É giro quando do nada surge um concorrente com uma voz extraordinária que provoca arrepios em toda a plateia. É claro que muitos destes programas são preparados de modo a puxar pelas emoções e há muitas histórias e atitudes pelo meio que parecem ser fingidas. Mas isso não invalida que seja bonito ver um talento a afirmar-se, deixando de lado a vergonha e os medos e contribuindo para tornar o mundo mais colorido através da boa música - aquela que brota do coração.
Estes shows têm o outro lado menos feliz. Os concorrentes que perseguem o sonho de vir a ter uma carreira musical, mas que não têm o talento necessário para lá chegar. Tais concorrentes correm o risco de ser vaiados pela plateia e gozados pelo júri. Nós tomamo-los por tolos e abanamos a cabeça com pena deles ou, pior ainda, rotulamo-los de patéticos e tornamo-los alvo de piadas. Esses concorrentes ouvem o temido "NÃO" que destroça os seus sonhos e que custa a aceitar.
Tenho que confessar que quando vejo este tipo de concorrentes também sou tentado a rir-me deles e muitas vezes faço-o. Mas por vezes resisto a essa tentação e dou por mim incomodado com toda a situação. Apetece-me mudar de canal para não ter que assistir àquela cena. Nunca percebi muito bem o que é que esses momentos televisivos têm de tão peculiar que me leva a sentir-me desconfortável. Até que me ocorreu que talvez eu me identifique com estes concorrentes.
Num outro contexto e com um outro júri, muitas vezes dou por mim a exibir os meus "talentos" patéticos de modo a obter aprovação e o tão desejado "SIM". Esforço-me para aprender a executar bem a minha prova, estudo bem a matéria e convenço-me de que sou capaz. O júri tem fama de ser cruel, mas eu avanço destemido sem noção de que estou a fazer uma figura ridícula. A prova não corre como eu esperava e ao longo da minha exibição vou sendo assobiado por um ou outro elemento da plateia. O júri não parece nada impressionado com o que eu fiz, apesar de todos os meus malabarismos para lhe agradar. Ele olha-me com um olhar ar triste e abana a cabeça com condescendência, tal como um pai perante os disparates de uma criança. Perante tal reacção, eu fico cabisbaixo à espera de ouvir o temido "NÃO", mas um pouco reconfortado porque não vejo o júri adoptar a tal postura cruel...
Até que, com espanto, ouço o que o júri tem a dizer em relação à minha prova: "Filho, não percebo o que estás a fazer. Tu já estás previamente aprovado, não precisas de me tentar impressionar dessa forma. SIM. SIM. SIM."
"Não há nada que possas fazer que leve Deus a amar-te mais. Não há nada que possas fazer que leve Deus a amar-te menos."
E para terminar este post, um vídeo que não me canso de ver e que me derrete o coração =)
Este blogue corre o risco de ser inundado por postes acerca da graça e eu corro o risco de me tornar num embaixador da graça de Deus (e aí está uma coisa na qual vale a pena arriscar). Quanto mais a observo à minha volta, quanto mais a experimento e quanto mais leio acerca dela, mais apaixonado estou! A ideia de que Deus anseia por nos receber nos Seus braços tal como estamos e que o Seu amor por nós permanece imutável e incondicional mesmo quando tropeçamos vezes sem conta é algo que permanentemente me faz confusão e me maravilha. Contraria a nossa tendência natural de negociar as coisas. Com Deus não há negócio possível.
Há de um lado um amor infinito e incondicional e do outro lado um pecador que necessita desse amor e que apenas tem que o aceitar. Há de um lado um Pai que espera ansiosamente pelo regresso do filho e que mal o vê ao longe corre ao seu encontro, abraça-o e faz uma festa e do outro lado um filho que fica estupefacto com a festa que o Pai lhe prepara depois de andar anos e anos a chafurdar na lama da vida. Há de um lado uma cruz com Deus feito homem a levar sobre si os nossos pecados e há aos pés da cruz um pecador contrito que, não podendo fazer nada para sair da condição de pecador com as suas próprias forças, repete apenas as palavras do publicano: "Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador." (Lucas 18:13)
Este vídeo ilustra bem aquilo que é a graça... e está disponível para todos, sem excepção, sem condições!
Na quinta feira comprei alguns livros de escritores cristãos. Tenho tido vontade de ler acerca da graça e do amor de Deus. Deus é, em essência, amor. E essa mensagem é tão poucas vezes difundida nas igrejas... preferimos falar de outros atributos de Deus, que são importantes mas que, ao serem tão enfatizados, acabam por ofuscar a mensagem central da Bíblia: o amor de Deus, aquilo que Ele fez por nós e aquilo que Ele quer ser para nós. A sociedade em que vivemos e a forma como fomos educados leva-nos a centrar numa versão parcial do evangelho: realçamos as regras e criamos uma aura de dureza e de juíz implacável à volta de Deus, esquecendo a sua magnífica graça. E eu sinto que preciso de aprender mais acerca dessa graça. Por isso resolvi "investigar" a literatura cristã a esse respeito, começando por alguns escritores conceituados no meio evangélico. Comprei os seguintes livros:
O Evangelho Maltrapilho, de Brennan Manning
Graça Maravilhosa, de Philip Yancey
Muito mais do que palavras, de Philip Yancey
Surpreendido Pela Alegria, de C.S. Lewis
Nos próximos tempos estes livros devem dar origem a algumas reflexões aqui no blog e alguns excertos dos livros devem passar por aqui.
Frequentemente, pessoas não cristãs colocam-nos a seguinte pergunta: se realmente existe um Deus que nos ama, porque é que Ele nos obriga a rezar, a ir à igreja e a cumprir uma série de rituais e/ou deveres que restringem a nossa liberdade? Reconheço uma lógica implícita neste raciocínio e reconheço até que é uma lógica válida e que pode ser fortalecida pelo estudo da história do cristianismo ou pela simples observação de muitos rituais religiosos que ainda permanecem bem enraizados na nossa sociedade.
Mas se a pergunta é pertinente, existe também uma resposta que (acho eu) é igualmente lógica e que vou tentar expor nas próximas linhas.
Começo por dizer que muitas pessoas que vêem o cristianismo de fora não chegam a tomar conhecimento daquilo que ele é realmente. E, não querendo ofender ninguém, atrevo-me também a dizer que muita gente que se diz cristã também não sabe o que é o cristianismo. Ou porque nunca lhes explicaram ou porque, mesmo sabendo o que é, preferem viver um pseudo-cristianismo moldado aos caprichos e às ideias do homem. O cristianismo não tem nada a ver com rituais ou tradições complicadas. Ser cristão não é como seguir um manual de instruções sem sentido, pensando que dessa forma compramos a nossa salvação, a nossa paz, a nossa felicidade ou a nossa vida para além da morte. O cristianismo não é uma troca de favores ou um negócio entre o homem e Deus.
Da forma como eu vejo as coisas, o cristianismo nem sequer é uma religião. Esta pode parecer uma opinião fundamentalista, mas é esta a opinião que melhor espelha aquilo em que acredito: as religiões são os caminhos que o homem inventou ao longo da história para tentar conhecer Deus; o cristianismo foi o caminho que Deus deu ao homem para que o homem o possa conhecer.
É por isso que não reconheço em Deus qualquer vestígio de crueldade ou injustiça. Porque para ser cristão não é preciso viver preso a um conjunto de regras irracionais, sacrificando a nossa liberdade de modo a subirmos mais um degrau na escada que nos leva a Deus. Não é disso que se trata o cristianismo. Se assim fosse, ser ou não um bom cristão seria resultado de uma espécie de selecção natural que favoreceria as pessoas com mais capacidade para o masoquismo. A mensagem do cristianismo é a de que, através do sacrifício de Jesus, o homem tem, se assim o desejar, livre acesso a uma relação com Deus, sem que seja necessário qualquer sacrifício adicional. É como se, ao reconhecermos Jesus como «o caminho, a verdade e a vida», Ele nos pegasse ao colo e nos levasse ao topo da escada, junto de Deus. Não é necessário o nosso próprio esforço para subirmos mais degraus. Ele põe-nos logo lá em cima!
A história do cristianismo está repleta de episódios macabros. Muita gente mal intencionada abusou da boa-vontade e da ignorância dos crentes, impondo regras e costumes opressores. Mesmo no tempo de Jesus, havia o grupo dos fariseus, gente letrada e extremamente religiosa que influenciava negativamente a forma como os judeus praticavam o judaísmo. A história das várias correntes cristãs conta acerca de grupos que, seguindo a onda dos fariseus, deturparam a mensagem central do cristianismo. Alguns dos episódios mais tristes das sociedades ocidentais desenvolveram-se baseados nessa mensagem deturpada: as cruzadas, a inquisição, a escravatura...
Acerca da história do cristianismo sugiro o filme Luther, que conta a vida de Martinho Lutero. Um padre que percebeu que aquilo que a igreja do século XVI pregava não tinha nada a ver com o evangelho que Jesus pregava e que, por ter lutado contra as tradições da igreja, acabou por tornar-se uma das personagens mais importantes da história do cristianismos, dando origem a muitas igrejas protestantes e também obrigando a uma inevitável reforma na própria igreja católica, ainda que muito atrasada.
Mas não pensemos que as tradições macabras e desumanas (se virem o filme ficam a saber melhor do que estou a falar) aconteceram apenas no passado, numa época ainda muito medieval. Ainda hoje há ignorância suficiente para se praticarem os actos mais horrorosos em nome do cristianismo. Este vídeo é um exemplo disso:
Também podia pôr aqui este... mas é realmente horrível (não aconselhado a pessoas sensíveis). Obviamente a igreja católica já há muito tempo se distanciou desta prática absurda levada a cabo pelos "cristãos" das Filipinas. Mas até que ponto é que as peregrinações não são também práticas masoquistas e inúteis? E até que ponto não são também inúteis as regras e todos os rituais aos quais os cristãos são, muitas vezes, obrigados a submeter-se? E as rezas repetidas n vezes apenas por tradição? E para não pensarem que este post é um manifesto anti-católico (não o é; este post é antes de tudo, uma tentativa de responder à pergunta lá de cima. E se tem alguma coisa de manifesto, é um manifesto anti-tudo aquilo que deturpa a mensagem da Bíblia, seja católico, protestante ou qualquer outra variante...) deixem-me pôr aqui no mesmo saco os "sacrifícios financeiros". Aliás, no tempo de Lutero essa era uma das formas de opressão favoritas por parte da igreja. Exigir dinheiro para a salvação, cura ou resolução dos problemas. Hoje em dia há por aí muitas igrejas ditas evangélicas que anunciam bençãos financeiras para os crentes. Os apóstolos desta triste ideologia incentivam os crentes a darem dinheiro à igreja levando-os a acreditar que dessa forma Deus retribuirá e dar-lhes-à prosperidade.
(Abro aqui um parêntesis para dizer que eu frequento uma igreja que se diz evangélica, mas que tem muito pouco em comum com as igrejas acima referidas, para além do nome. E sinceramente tenho vergonha de ter esse nome em comum e prefiro dizer simplesmente que sou cristão, para tentar evitar que me colem a qualquer uma das correntes do cristianismo. Infelizmente há uma proliferação assustadora de igrejas que se auto-denominam evangélicas, causando uma confusão de todo o tamanho. A minha igreja, não sendo perfeita, é onde eu me sinto melhor porque conheço as pessoas que a frequentam e sei que, mesmo com divergências pontuais em relação a questões de doutrina, essas pessoas entendem e vivem o cristianismo da mesma forma que eu. Compreendo que seja confuso para quem está de fora perceber o porquê de tantas igrejas e de tantas divisões entre os cristãos. As razões são muitas, algumas mais válidas do que outras. Mas é provável que em qualquer igreja dita cristã existam pessoas que percebem o cristianismo e que o vivem realmente nas suas vidas e pessoas que não o fazem. A proporção entre estes dois tipos de pessoas varia de igreja para igreja. Avaliar até que ponto uma igreja é mais cristã do que outra é uma tarefa não linear da qual devemos nos abster.)
Voltando ao tema do post, uma coisa é certa: nada daquilo que fizermos vai levar Deus a amar-nos mais. Ele já nos ama com um amor pleno, absoluto, total. Não há qualquer tipo de sacrifício, de reza, de peregrinação, de esforço, de molestação física, psicológica ou emocional, que leve Deus a gostar mais de nós. No mundo consumista em que vivemos, é difícil distanciarmo-nos de uma visão do cristianismo que não exija qualquer troca, qualquer espécie de negócio. Mas é assim mesmo que funciona a graça de Deus. Ele permitiu que Jesus se sacrificasse em nosso lugar e agora não há nada que tenhamos que fazer para ter acesso a Ele. É gratuito, basta aceitá-lo.
E agora vocês perguntam: mas se é assim, isso quer dizer que não é preciso ir à igreja, nem falar com Deus, nem cumprir qualquer tipo de regras? Aceitamos que Jesus morreu por nós criando, através da sua morte e ressurreição, um caminho para Deus e isso é tudo? O cristianismo acaba aí?
Quem acompanha este blog já deve saber a resposta. O cristianismo não acaba aí. Reconhecer que é Jesus que nos reconcilia com Deus é apenas o primeiro passo. A partir daí, já que temos acesso a Deus, ser cristão é estabelecer com Ele uma relação pessoal. E, à medida que vamos percebendo o tamanho do amor que Deus tem por nós, vamos sentindo desejo de aprofundar essa relação. Como em qualquer relação, as duas partes têm que comunicar uma com a outra. Por isso sentimos desejo de falar com Deus, de lhe contarmos os nossos problemas e anseios e de partilharmos com Ele as nossas alegrias. Rezar, ou melhor, falar com Deus, não deve ser uma obrigação auto-imposta sob o medo de não lhe estarmos a agradar o suficiente. Falar com Deus torna-se uma necessidade e um prazer. Tal como falar com os nossos amigos mais próximos e com quem gostamos de estar. E Ele fala conosco através da Bíblia e através daqueles a quem designou para pregar a sua mensagem nas igrejas. E é também natural sentirmos desejo de partilhar a descoberta de Deus com outros que estão a fazer a mesma descoberta. Isso faz-se nas igrejas. Por isso, o desejo de ir à igreja vai crescendo, sem que seja também uma obrigação. A ideia do cristão não deve ser baseada no medo de Deus: "tenho que orar e ir à igreja e cumprir todas as regras, caso contrário Deus vai zangar-se comigo e castiga-me." A ideia é a de fazer essas coisas porque temos gosto em fazê-las, porque elas nos completam.
E é natural que a relação com Deus vá moldando as nossas personalidades, as nossas opiniões e o nosso carácter. Isso reflecte-se em mudanças que, para quem está de fora, podem parecer um sinal de perda de liberdade. No entanto a motivação do cristão não deve ser apenas a de cumprir regras com o intuito de agradar a Deus, como se lhe estivesse a fazer um favor. Ao nos relacionarmos com Deus as noções do bem e do mal, do certo e do errado, vão ganhando contornos mais definidos na nossa consciência e a motivação das mudanças que ocorrem no cristão deve ser uma convicção profunda daquilo que é certo e errado, numa busca constante da integridade da qual Jesus foi o exemplo máximo.
Espero com este texto ter conseguido delinear uma resposta plausível àqueles que julgam encontrar sinais de crueldade em Deus e no cristianismo. A relação do homem com Deus não implica a perda de liberdade. Pelo contrário... reconhecer que precisamos dele e da acção do seu amor nas nossas vidas, levar-nos-à a uma caminhada durante a qual nos vamos libertando dos defeitos e dos erros que nos aprisionam. Deus não nos transforma em escravos seus, mas em amigos! E se é verdade que o cristianismo pode levar os crentes a abdicar de coisas e a imporem, aparentemente, alguma restrição à sua própria liberdade, isso deverá ser feito de coração, com a convicção de que se está a tomar a atitude certa e nunca por medo e obrigação. Caso contrário, estaremos a tornar-nos fanáticos e a viver um cristianismo oco e sem sentido. E em nome desse tipo de cristianismo o homem já mostrou que é capaz de cometer os actos mais loucos que possamos imaginar, actos nos quais não há qualquer vestígio da mensagem de Jesus.
“Se pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36)
O programa Novas Oportunidades que o Sócrates tanto propagandeou, tem o nome plagiado. Na verdade, esse programa já existe há muito tempo e quem o fundou foi Deus. Ele é o Senhor das Novas Oportunidades. Ele não se cansa de nos amar. Não se cansa de nos perdoar repetidas vezes, quando cometemos ciclicamente os mesmos erros. Ele é como um Pai que levanta o seu filho quando ele está caído, de rastos. E faz isso tantas vezes quantas forem necessárias. Por vezes deixamos a vida seguir o seu curso com negligência. Deixamos as coisas simplesmente acontecerem, tomamos decisões erradas, quase sem dar por isso, e ficamos atolados numa vida que não é aquela que sonhámos. Até que um dia nos apercebemos que os nossos planos do passado, os nossos sonhos, os nossos propósitos, não foram atingidos e ficaram enterrados algures no nosso caminho. E é bom saber que, nesse dia, podemos deixar que Deus tome conta das coisas, podemos entregar-lhe de novo o leme da nossa vida e esperar que Ele reconstrua os planos e os sonhos. Podemos começar de novo, porque Ele dá-nos uma nova oportunidade. Esta é uma das características de Deus que mais me encanta. A graça de Deus é magnífica.
Tentei resumir aqui o que significa ser cristão e, neste segundo post, pretendo desenvolver o primeiro ponto. Ser cristão começa por "reconhecer que precisamos de Deus nas nossas vidas e aceitar que é a morte de Jesus na cruz que permite a reconciliação do homem com Deus". A acção de Deus na vida das pessoas é catalisada por dois factores que se desenvolvem em nós, pelas circunstâncias da vida, quando somos honestos, quando reconhecemos que há um vazio no nosso coração que só pode ser preenchido por Ele. Os dois factores de que falo são a necessidade e a fé.
Deus deu-nos as faculdades necessárias para tomarmos as nossas próprias decisões. Ele jamais obrigará uma pessoa a agir e a viver segundo a sua própria vontade. Ele nunca nos forçará a acreditar nele. Ele deu-nos o livre arbítrio e a consciência que nos pode ajudar a distinguir o certo do errado, o verdadeiro do falso. Daí que o primeiro passo para estabelecer uma relação com Deus deva ser dado pelo homem. Um passo motivado pela necessidade e movido por uma fé que, inicialmente, pode até ser frágil, como uma pequena semente, mas que, com o tempo, cresce e frutifica. Porque é o homem quem escolhe o seu caminho e é o homem quem escolhe abraçar ou rejeitar a fé. Existe uma frase feita que exprime bem aquilo que Deus deseja que aconteça com cada um de nós: "dá um passo na direcção de Deus e Ele correrá para ti!".
Jesus contou diversas parábolas que podem ser aplicadas às nossas vidas e uma das mais conhecidas é a parábola do filho pródigo (Lucas 15). Um rapaz que pede ao pai a sua parte da herança para sair de casa e viver a vida desfrutando da riqueza efémera de que dispõe. Quando o dinheiro se esgota, o rapaz é abandonado e torna-se um miserável. Ganha a vida a guardar porcos, desejando alimentar-se com a comida dos animais. Até que percebe que em casa do pai qualquer empregado levava uma vida melhor do que aquela que ele estava a levar e decide voltar para casa, para rogar ao pai que o aceite como um empregado. O pai, que amava o filho com um amor imenso, no dia em que vê, ao longe, o seu filho a regressar a casa, corre ao encontro dele, abraço-o, aceita-o como filho e festeja o seu regresso com alegria. É isto que Deus quer fazer conosco. Ele ama-nos muito e espera ansioso que nós "voltemos a casa". Mas somos nós que temos que tomar essa decisão. E assim que Ele nos vir, ao longe, a dar um passo na Sua direcção, Ele vai correr para nós e vai aceitar-nos como seus filhos.
No entanto, tornar-mo-nos cristãos e sermos cristãos não é algo que se esgote num episódio esporádico de revelação espiritual. Não é um "acontecimento" ou uma "fase". É algo que deve passar a ser a essência da nossa vida. Cristão significa "seguidor de Cristo" e ser cristão significa ser a cada dia mais parecido com Jesus. É um processo contínuo, que deve durar toda a vida, durante o qual a nossa fé se vai aperfeiçoando e o nosso carácter vai sendo moldado por Deus. Mas não quero com isto dizer que o cristianismo implica uma luta individual contra nós próprios, em busca da tal perfeição quer a nível de fé, quer a nível de carácter. O cristianismo implica uma luta contra nós próprios, sim! Implica uma negação daquilo que somos, enquanto seres humanos falíveis e que cometem erros quase à mesma velocidade com que respiram. Mas essa luta não é individual: é uma luta que já está ganha à partida porque Deus está conosco e por Ele somos vencedores. «Mas a nossa vitória é total no meio de todas essas coisas, e isso devido a Cristo, o qual nos amou a ponto de morrer por nós.» (Romanos 8:37). Desde o momento em que damos o primeiro passo na Sua direcção e Ele corre para nós, Ele não nos abandona. O seu amor e a sua graça já fizeram na cruz aquilo que nós não podíamos fazer e esse amor e essa graça continuarão a fazer na nossa vida aquilo que não formos capazes. O cristianismo é a resposta para o vazio que existe no coração do homem porque implica uma vida acompanhada por Deus. Ele não nos deixa sozinhos: cuida de nós, sara os nossos corações tantas vezes magoados pela vida, leva-nos a realizar obras e sonhos que, pelas nossas próprias forças, nunca conseguiríamos realizar...
Talvez alguém ao ler este texto se pergunte: "Ok, dizes que a fé um catalisador para a acção de Deus na vida do homem. Mas fé em quê, exactamente?". Pois quero ocupar as últimas linhas deste post a tentar responder a esta questão. Para tal, vou voltar à frase inicial: "... é a morte de Jesus na cruz que permite a reconciliação do homem com Deus." Esta é a base da fé do cristão: acreditar e aceitar a morte de Jesus como o ponto central da história. Há muitas outras doutrinas ou dogmas defendidos por alguns grupos cristãos. Mas a fé na morte de Jesus e na sua posterior ressurreição é a única condição necessária e suficiente para termos uma fé cristã. Há quem diga que se tivessemos que resumir a mensagem da Bíblia em poucas palavras, podíamos escolher o versículo João 3:16: «Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu único filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.» E se aceitarmos que Jesus é o caminho que nos leva ao conhecimento de Deus e acreditarmos que este versículo contém a essência da mensagem de Deus aos homens, então está dado o primeiro passo para sermos cristãos.
(Nota: é natural que nestes posts acabe por misturar um pouco os três tópicos de que falei aqui, porque o processo não é linear ao ponto de os poder tratar como assuntos distintos.)